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Olá Fotógrafos!

No Brasil, existem dois Murucututus. Eles dividem floresta, dividem canto e dividem o mesmo nome popular. Mas são espécies diferentes — e as diferenças contam, principalmente quando o assunto é fotografia e conservação.

Tem coruja no Brasil cujo nome é o próprio som. Murucututu — repetido, ritmado, onomatopeico. É como se a mata estivesse batendo panelas no escuro.

E tem um detalhe que pouca gente sabe: quando a gente fala "murucututu", pode estar falando de duas espécies diferentes. A primeira é o Murucututu-de-óculos (Pulsatrix perspicillata), com olhos amarelos brilhantes e aquelas "marcas brancas" ao redor que parecem óculos. A segunda é o Murucututu-de-barriga-amarela (Pulsatrix koeniswaldiana), de olhos castanho-escuros, com um "X" branco bem desenhado no rosto, e que só existe na Mata Atlântica.

As duas vivem no mesmo bioma em parte da distribuição. Em algumas regiões elas são sintópicas — ou seja, dividem o mesmo território, cantam na mesma noite, caçam na mesma floresta. E, mesmo assim, quase nunca se confundem. Quem aprende a observar os olhos, descobre que o restante vem fácil.

Esse texto é sobre como separar as duas, por que vale a pena conhecer as duas, e o que cada uma ensina sobre a floresta que habitam.

Quem é quem — a separação começa nos olhos

A diferença mais prática e imediata está nos olhos:

  • Murucututu-de-óculos — olhos amarelos brilhantes, únicos no gênero Pulsatrix por essa característica. Disco facial escuro com "óculos" brancos bem marcados.

  • Murucututu-de-barriga-amarela — olhos castanho-escuros. Disco facial castanho com sobrancelhas brancas. As penas brancas do loro e a estria malar se juntam formando um "X" no rosto — um dos traços mais elegantes entre as corujas brasileiras.

Quem fotografa as duas percebe que o olhar conta uma história diferente. O de olhos amarelos parece alerta, teatral. O de olhos escuros parece mais discreto, atento ao que se passa sob a folhagem. A luz bate diferente em cada um. O retrato pede abordagens diferentes.

Se tiver dúvida, comece pelos olhos. Depois passe para o disco facial, a sobrancelha, a barriga. A chave está no detalhe.

O filhote que parece boneco de neve com máscara de Zorro

Aqui tem um detalhe que sempre impressiona quem vê pela primeira vez: o juvenil do Murucututu-de-óculos é inteiramente branco com disco facial marrom-chocolate. Em campo, parece um boneco de neve usando uma máscara de Zorro. É uma das plumagens juvenis mais distintas entre as corujas neotropicais — fácil de identificar, impossível de confundir.

O juvenil do de-barriga-amarela também é branco com disco facial escuro, mas o padrão é diferente: mais discreto, mais "puxado" para o bege no corpo.

Filhotes assim não aparecem toda noite. É preciso conhecer ocos de árvores maduras, ter paciência para esperar a temporada reprodutiva e respeitar distância. Mas quem consegue registrar essa fase leva para casa uma das imagens mais marcantes da fauna brasileira.

O que cada Murucututu ensina?

A primeira coisa que as duas espécies ensinam é paciência. A segunda é que ouvir é tão importante quanto ver. A terceira é que floresta bem conservada produz som — e o som, com o tempo, vira imagem.

O Murucututu-de-óculos ensina também sobre plasticidade. Está em todo lugar — do México à Argentina — porque aprendeu a usar habitats alterados sem perder dependência de ocos. É a prova de que nem toda adaptação humana à paisagem precisa ser tragédia.

O Murucututu-de-barriga-amarela ensina sobre endemismo e o que perdemos quando perdemos Mata Atlântica. Se ele desaparece, desaparece também uma linhagem única de corujas que não existe em nenhum outro lugar do mundo.

Se você já ouviu ou fotografou um murucututu, conta aqui como foi. Adoro saber em que floresta estava, se era o de-óculos ou o de-barriga-amarela, e quanto tempo levou para encontrar. Cada história de campo ajuda a montar o mapa do que ainda existe por aí.

Boas fotos e até a próxima edição!

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